domingo, 20 de outubro de 2019

SOBRE OS PEQUENOS GESTOS



Foi minha irmã que pela manha me avisou:
- Dóris, D. Maria partiu. Estava internada há dias e não resistiu...
No mesmo instante em meu pensamento veio à vontade de ligar para seu filho, filhas e genro e lhes dizer de como me senti triste com esta perda, mas não consegui ligar para elas nem escrever no “facebook” e lhes dizer dos meus sentimentos.
Não via D. Maria há muito, muito tempo. Tinha noticias dela pela minha mãe e irmãs. Sabia que tinha finalmente se mudado e se livrado da escadaria que tanto a cansava. Sabia que frequentava a Igreja do bairro e vez por outra se encontrava com minha mãe. Estava idosa,mas sabia que estava bem!
A triste noticia da sua partida trouxe a minha mente imagens que me impediam de ligar para a família. Eu só conseguia imagina-la ouvindo seus discos (LP´s mesmo), voltando do serviço em seu carro, me dando carona, dando conselhos, falando da vida.  Da sua risada enquanto dirigia sua braveza e suas receitas alternativas e, mais um pequeno gesto que ficou guardado para sempre no meu coração:
 Isso foi no tempo em que o Roberto era um adolescente magrelo, a Ana Paula uma menina de aparelho e a Raquel, pode se dizer que ainda era uma criança. Eu e a Rosaura já éramos jovens (ainda somos, né?), muito jovens. Eu fazia cursinho, ela cursava engenharia e o Zé Olinto já estava por ali...
Não me lembro exatamente o porque eu tinha passado a noite na casa dela naquela véspera de Pascoa.  Acho que a festa em que fomos eu e sua filha (provavelmente com amigos) ficou menos importante naquele dia.  O que ficou foi o registro da surpresa que ela nos fez:
Acordamos e a mesa do café estava posta. Sentei-me a mesa e virei a xicara para me servir de café. Escondido, sob a xicara, apareceu um “bombom sonho de valsa”. Rimos todos da surpresa e ela logo nos desejou uma Feliz Pascoa! Foi simples assim, mas a imagem do carinho ficou e ao saber que ela havia partido a imagem voltou em minhas recordações e não consegui visualizar ela imóvel, parada. Eu só a via rindo para mim e falando do bombom. E foi com essa recordação que mentalmente me despedi dela... Será que ela conseguiu ouvir?
- Vá em Paz, D. Maria. Descanse nos braços do pai e dance! Dance uma valsa, uma doce valsa, o seu Sonho de Valsa!




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