Minha querida São José dos Campos, você foi entrando em meu coração
devagarzinho.
Não nasci em tuas terras, mas meus filhos sim e é aqui quase que sem
perceber que estou criando raízes...
Fui te descobrindo devagar, como nos namoros antigos. Você vai
conhecendo, descobrindo e se envolvendo e de repente você já não sabe mais
como viver longe dele...
Em alguns momentos eu penso que sou uma espécie de cigana...
Meu pai era italiano do norte da Itália que veio para o Brasil em 1955
para fugir de seu destino de trabalhar na terra. Lutou na 2ª guerra e
certamente procurava “o novo mundo”. Depois de um par de anos resolveu voltar
para a Itália, mas não sem antes conhecer o sul do Brasil que lhe diziam ser
muito bonito e foi lá que ele encontrou minha mãe. Catarinense, neta de
imigrantes, falavam a mesma língua, se conheceram e se casaram em pouco tempo
e foram morar em Juiz de Fora /MG onde nasci. Passei minha infância lá, e
menina eu assistia a rivalidade entre Juiz de Foranos também chamados
“cariocas do brejo” e os mineiros da capital...
E num belo dia somos informadas que nós iríamos morar na capital... E
lá fomos nós... Esperança nas mãos e um certo temor no coração de como
seriamos recebidos na Capital.
Belo Horizonte naquela época era uma cidade fervilhante e não nos
recebeu com carinho. Foi lá que pela primeira vez ouvi falar de SJC. Eu
estudava no Colégio Pio XX de Freiras Salesianas, estavam organizando uma
viagem até uma cidade de nome São Jose dos Campos. Tive enorme vontade de
vir, porem meus pais não deixaram. Anos depois, um amigo de infância foi nos
visitar e falou que estudava numa importante Faculdade em São José... Conheci
assim o “ITA” e o “CTA”.
Estudei e me formei em Belo Horizonte e já estava bem adaptada quando
de repente o destino se intrometeu em minha vida e me apresenta um rapaz. Nos
apaixonamos e os dois, em busca de melhores oportunidades nos casamos e
viemos para cá.
A primeira vez que vi SJC estavas envolta por uma bruma... Era manha
bem cedinho e o ônibus estacionou na Rodoviária Nova. Andando por
tuas ruas ela me pareceu uma cidade misteriosa meio assombrada com aquela
neblina espessa e úmida... No trajeto conheci e me maravilhei com o Banhado.
Não conseguia ver direito o que estava escondido sob a neblina... Parecia a
orla de uma praia, mas não nesta altitude.
Mas tão rápido a bruma se dissipou e um sol luminoso brilhou a cidade.
Vi então suas ruas planas, cheias de árvores e ipês floridos, pareciam
enfeitados para uma festa. O chão estava como um tapete de flores a me
receber. Esta é a imagem mais forte que tenho de ti... O asfalto forrado de
folhas e flores... As andorinhas na copa das arvores faziam um barulho
alegremente ensurdecedor e nas suas brincadeiras davam rasantes nas suas ruas
ainda vazias aquela hora da manha.
Paramos na padaria e lá tomamos um gostoso café com pão na chapa, e
foi assim que conheci seus primeiros habitantes. Olhando seus rostos percebi
que vinham de vários lugares, todos correndo a tomar seu café e indo para o
trabalho.
Era uma sexta feira e o ritmo agitado da cidade se contrastava com a
expectativa no rosto de seus cidadãos pela proximidade do fim de semana. Com
certeza faziam planos. Talvez fossem para um clube, O Luso, o Tênis ou a
Associação Esportiva, ou quem sabe tinham um sitio no município ou mesmo nos
arredores, Jacareí, Santa Branca, Jambeiro, Paraibuna? Podiam escolher ir
para a Serra? Visitar Campos do Jordão? Mas com esse sol brilhante! Poderiam
escolher também ir para alguma praia, tão pertinho daqui! Descobri depois que
muitos de seus moradores eram meio que estrangeiros como eu e aproveitavam o
fim de semana para ir visitar seus parentes, em São Paulo, Rio, ou no
interior de Minas... E deixavam a cidade um pouco vazia...Naquela época ainda
não existia os grandes Shoppings Center. Não havia o Center Vale, o Colinas,
o Vale Sul. Existia somente o Shopping do Centro da Cidade, onde quase todos
iam fazer suas compras e ver as novidades...
Assim falando parece que isto foi há muito tempo atrás... Veja bem,
não sou tão velha assim, é que você São José dos Campos, parece que tomou
fermento e cresceu muito e se desenvolveu mais que as outras cidades. Quando
aqui cheguei era difícil encontrar alguém que havia nascido aqui. A maioria da
população vinha de outras cidades
Agora você já tem muitos filhos! Filhos que te adoram e dizem não
querer sair daqui, pois aqui é a cidade perfeita esta perto de tudo e tem
tudo o que se pode querer em termos de diversão e qualidade de vida. Mas há
alguns anos atrás ainda não era assim. As pessoas gostavam de fazer suas
compras em São Paulo (ainda não perderam este costume), iam a teatros e bares
sempre longe daqui. Hoje você São José já tem uma vida noturna agitada bares,
cinemas e o teatro também esta se desenvolvendo por aqui... É só lhe dar mais
um tempinho...
Lembro-me bem de que um dos primeiros lugares que conheci foi a
Tecelagem Paraíba. Na época ela ainda funcionava dentro do que é hoje o
Parque da Cidade, lindo! Encantei-me com seus prédios de tijolos, suas
paineiras, e sua loja de cobertores... E me lembrei do comercial com o
menininho que ia dormir todo quentinho segurando uma lamparina na mão e a
cantiga que era assim:
_ “Tá na hora de dormir, não espere mamãe mandar... Um bom sono para
você, e um alegre despertar...”
Eu me hospedei na Vila Ema. Na época um bairro de casas modestas e
hoje é um bairro charmoso, sempre em transformação, cheio do agito dos bares
e lojas que encantam os olhos. Passeando pela Vila Ema via a Rua Serimbura. A
capelinha que lá existe me encantou pela sua localização e simplicidade.
Andando por essas bandas conheci e me encantei com o Vicentina Aranha, quase
abandonado era quase possível ver seus fantasmas...
Indo para o centro passei pelo Tênis Clube e lembrei que ouvira falar
de grandes disputas esportivas que aconteciam ali. Soube então que ali
antigamente era a Estação Ferroviária da cidade. As palmeiras imperiais que
levavam até o centro da cidade, ainda estão lá na Avenida João Guilhermino a
nos lembrar desta época antiga. E fui vendo mais... O Fórum, a Câmara.
Conhecendo o centro da cidade vi a igreja Matriz,
timidamente majestosa nos seus traços simples, construída em 1934 onde
outrora existiu a primeira capela do povoado construída em taipa de pilão
pelos indios. Bem em frente à Matriz o marco zero da cidade. Bem próximo
também estava a antiga, singela e abandonada Igreja de São Benedito que com
suas historia nos encanta.
Lembras
São José?
Ela
começou a ser construída em 1869 e frequentada pelos escravos e homens pobres
da região. Dizem que o “ Zé Taipeiro” foi o responsável pela construção de
suas grossas paredes feitas de taipa de pilão. Segundo os “entendidos” ela só
foi finalizada graças a um achado de um tal João Ribeiro que ao reformar um
casarão na cidade acabou encontrou um panelão de barro cheio de barras de
ouro e, em agradecimento ao “achado”, finalizou a construção da Igreja.
Contaram-me
ainda que dentro da Igreja, entre duas paredes do templo está enterrado, em
pé, o corpo mumificado do Capitão Miguel de Araújo Ferraz que foi tirado na
época, da antiga Igreja do Rosário que estava sendo demolida e transferido
para ela.
Na Praça Cônego Lima vi suas antigas e assombrosas figueiras suas
paineiras, angicos e sucupiras...
Vi seu antigo Theatro São José que ainda funcionava se bem que
precariamente...
Descendo para o lado dos campos de Santana conheci a nova Estação
Ferroviária, a Tecelagem.
Fui andando para Santana, Freitas, Buquira...
Resolvi te conhecer mais. Fui em busca da tua historia e daqueles que
sabiam mais sobre você. No livro do Bondesan conheci seu drama com a
tuberculose, com o livro do Age Junior seu passado mais distante com suas
historias da colonização.
Me encantei com o Livro do Omar Fonseca que te recriou em “branco
e preto” com uma pena de Nanquim.
Conheci a Ângela Savastano guardando e pesquisando seu legado
folclórico.
Sempre a margem, mas sempre atenta vi aparecerem novos admiradores e
pesquisadores de você São José e assim novas antigas historias estão sendo
reveladas.
Descobri que sua fundação se confunde com a historia de São Paulo de Piratininga...
Contam-nos os historiadores que alguns índios Guaianazes fugitivos da aldeia
de Piratininga vieram parar nessas bandas... Ficaram reunidos á margem do Rio
Paraíba. Aos poucos o local ficou conhecido como “Aldeia do Rio Comprido”.
Esse aldeamento aos poucos se mudou para o nosso querido banhado... Isso foi
nos idos de 1643.
Soube da construção da “Residência dos Padres” na atual João Pessoa ou
Largo da Matriz que mais tarde se transformou num convento e que era ligado a
Matriz por uma galeria subterrânea para se protegerem do ataque dos índios
inimigos.
Você consegue se lembrar das cabanas dos índios ali onde hoje é a Avenida
São José e a Praça da Matriz ?
Nunca imaginei que nestas terras havia criação de ovelhas e que a lã
dessas ovelhas criou uma pequena indústria de chapéus grossos de feltro e que
houve extração de ouro na “fazenda dos padres”. Tambem não sabia que até a
construção da represa de Paraibuna o banhado se enchia de água e na época das
chuvas os moradores de Santana vinham de barco até a Igreja Matriz.
Sabias que onde hoje é centro da cidade existiu um cemitério e que às
vezes ainda encontram pedaços de ossos quando cavam o solo? Que as “quatro
paineiras da praça” marcavam a entrada de um cemitério? Tu te lembras São
José?
Fui descobrindo que a descoberta do ouro nas Minas Gerais, fez a sua
população já pouca diminuir ainda mais e esta correria do ouro fez nascer uma
demanda por cavalos e mulas e trouxeram os tropeiros que negociavam estes
animais que eram vendidos em São Paulo e no Rio de Janeiro.
E mais...
Que nas margens do Rio Paraíba lá perto de Santana, construíram um
posto de remonta para descanso dos tropeiros e existiu outro posto de remonta
as margens do Rio Paranga.
Suas tradições!
De certo o bolinho caipira feito fubá ( ou de mandioca?) e carne moída
surgiu por ali numa noite fria, perto de um fogão de lenha, tendo como
espectadores da novidade os olhos brilhantes dos filhos de tropeiros e
caboclos.
Fiquei sabendo também que em 1759 os Padres Jesuítas que administravam
a Aldeia foram expulsos do País e entregaram a administração da “Aldeia de
São José” ao capitão mor de Jacareí o Sr. José de Araújo Coimbra, que se
afeiçoou por ti São José e fez de tudo para elevar-te a Vila, antes mesmo de
ter passado pelo estado de freguesia, como era a ordem normal das coisas...
Descobri que passaste um bom tempo dormindo, como que em repouso, uma
forma de respeito aos que aqui sofreram tão terrível mal como foi a
tuberculose.
Veja bem São José hoje conheço mais sua historia, sei que você foi uma
cidade que no começo era pequena e sem muita expressão... Foi despertando devagarzinho...
Vieram os mineiros, italianos, libaneses e outros mais. Chegavam para povoar
suas terras, criando fazendas... Depois descobriram seu clima saudável para a
cura da tuberculose, doença terrível que vitimava as pessoas de forma
democrática. A única esperança de cura era um clima agradável alimentação e
repouso. E assim trazidos por uma doença aportaram centenas de pessoas nas
suas terras. Muitas se curaram e retornaram para suas cidades natal. Outras
aqui lançaram seus últimos suspiros, outras ainda se curaram e escolheram
continuar vivendo em suas terras.
Quando enfim se descobriu um remédio para tão terrível mal, podia se
imaginar que tu São José não fosses mais crescer, iriam te esquecer... Mas
eis que Getúlio Vargas manda construir uma rodovia ligando São Paulo ao Rio
de Janeiro, e você São Jose dos Campos, que pacata estavas, fica colocada no
meio desta importante rodovia. Isto impulsiona seu crescimento. A Rhodosa foi
a primeira grande empresa a se estabelecer aqui, mesmo antes de inaugurada a
Via Dutra. Logo em seguida veio o CTA e logo depois uma enxurrada de Empresas
foi se estabelecendo em suas terras, trazendo gente de todo o país, e a
pacatez de cidade pequena foi dando lugar a uma cidade agitada, cheia de
operários, empresários, comerciantes, profissionais liberais... E uma coisa
foi puxando a outra, vieram as Faculdades, a Etep, Ita, Inpe, Fundação Vale
paraibana, Univap, Embraer, enfim suas terras se valorizaram. Construíram uma
cidade dentro de outra cidade a: Urbanova. Continuas a crescer, pois como já
me disseram com a construção do Porto de São Sebastião mais empresas passarão
por aqui, mais progresso...
Tivestes e tens prefeitos que te amam, pois cada um que vem procura te
embelezar mais...
Engrandeceram o seu nome. Creio que estas pessoas se apaixonaram por
seus mistérios. Sua vida pacata da época. A sua origem indígena, o relato de
que ai na beira do banhado os índios haviam escolhido para erguer suas
cabanas, pois dali podiam ver os inimigos que poderiam surgir. Uns dizem que
Jose de Anchieta foi quem te fundou! Mas o que mais intriga até hoje seus
cidadãos é a curiosidade em saber: existe mesmo um túnel que liga a Igreja a
Câmara?
E o seu jeito mineiro São José ele esta muito bem representado no
Bairro de Santana. Já pensei até que ao escolherem o nome de Santana para
este bairro foi uma escolha do destino, pois não era Santana a mãe
de Maria, esposa de São José?
Santana é um capitulo a parte na tua historia. Guarda toda a sua
tradição caipira, da terra. Moda de Viola, Sítios, Historias de Assombração,
lendas... É realmente delicioso passear pelas bandas de Santana, conversar
com seus moradores, ver ainda pelas suas ruas o vendedor que bate na janela
de madeira e pergunta ao morador se quer comprar sua mercadoria... Ver as
pessoas passeando na frente da igreja, conversando nas calçadas... Saboroso
passeio faz bem para a alma, nos tranquiliza...
Pena que hoje em dia no caminho que nos leva até lá vemos o antigo
Prédio quase abandonado da antiga Porcelana Weiss que a modernidade não
permitiu que continuasse a funcionar! Em compensação a antiga Fábrica de
Cobertores Paraíba foi transformada num local publico que abriga vários
serviços públicos, como a Fundação Cassiano Ricardo, o Ceama, o Museu, e em
breve o nosso Teatro Municipal.
Quando cheguei aqui e isto foi em 1984, já te achava grande São José,
mas cresceste mais! Nestes anos que aqui estou vi cresceres para todo o lado.
Acompanhei o crescimento de teus bairros, a realização de um antigo projeto
como a construção do anel viário que nos permite cruzar a cidade em poucos
minutos. Vi pessoas que chegavam como funcionários de empresas se
transformarem em empresários bem sucedidos
Ao mesmo tempo São Jose não perdestes tua poesia. Um passeio na
Avenida Anchieta nos deixa extasiados com seu Por do Sol. Subir no alto de um
de seus enormes prédios pode nos proporcionar uma visão magnífica, sentimento
de liberdade ao avistar toda a cidade espalhada pelo Vale, tendo ao fundo a
Mantiqueira, ver o burburinho da cidade e um avião aterrissar no aeroporto.
És clara, linda, transparente...
O Crescimento deixou marcas em ti, São José! Ainda tens de te curar
das feridas da violência. Ferida essa que assola todo o nosso País, mas creio
que breve iras conseguir sanar também esta mácula que esta em ti... Protegendo
sem distinção todos os teus filhos e agregados.
Enquanto escrevo esta carta para ti, sou obrigada a sair no meio da
madrugada para ir até a farmácia, é noite fria tuas ruas estão tranquilas,
quase vazias. Deparo-me com o voo de uma de suas famosas Corujas que graças a
Deus teimam em dividir a cidade com os seres humanos.
Agora São José, depois de muita luta, decidistes revelar para nós a joia
que estava escondida por detrás dos muros. O antigo hospital Sanatório
Vicentina Aranha, construído na década de 30, rodeado de arvores lindas, com
Capela pitoresca e de vitrais coloridos que ouviu no passado as preces dos
doentes da tuberculose está se integrando a paisagem de maneira magnífica.
Passear por estas bandas ficou muito mais bonito. Desde que estou aqui, vi
bairros nascerem e crescerem. De antigos sítios bairros se formaram e
continuas a crescer... Desejo a ti São José que continues a crescer, mas que
saibas encontrar o limite ideal, que sejas feliz e faças feliz seus cidadãos,
pois foi aqui que pude descobrir que se multiplicar dá sentido a vida, foi
aqui que me tornei mãe de um casal de Joseenses maravilhosos.
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