segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Minha Querida São José dos Campos



2007/2008
Minha querida São José dos Campos, você foi entrando em meu coração devagarzinho.
Não nasci em tuas terras, mas meus filhos sim e é aqui quase que sem perceber que estou criando raízes...
Fui te descobrindo devagar, como nos namoros antigos. Você vai conhecendo, descobrindo e se envolvendo e de repente você já não sabe mais como viver longe dele...
Em alguns momentos eu penso que sou uma espécie de cigana...
Meu pai era italiano do norte da Itália que veio para o Brasil em 1955 para fugir de seu destino de trabalhar na terra. Lutou na 2ª guerra e certamente procurava “o novo mundo”. Depois de um par de anos resolveu voltar para a Itália, mas não sem antes conhecer o sul do Brasil que lhe diziam ser muito bonito e foi lá que ele encontrou minha mãe. Catarinense, neta de imigrantes, falavam a mesma língua, se conheceram e se casaram em pouco tempo e foram morar em Juiz de Fora /MG onde nasci. Passei minha infância lá, e menina eu assistia a rivalidade entre Juiz de Foranos também chamados “cariocas do brejo” e os mineiros da capital... 
E num belo dia somos informadas que nós iríamos morar na capital... E lá fomos nós... Esperança nas mãos e um certo temor no coração de como seriamos recebidos na Capital.
Belo Horizonte naquela época era uma cidade fervilhante e não nos recebeu com carinho. Foi lá que pela primeira vez ouvi falar de SJC. Eu estudava no Colégio Pio XX de Freiras Salesianas, estavam organizando uma viagem até uma cidade de nome São Jose dos Campos. Tive enorme vontade de vir, porem meus pais não deixaram. Anos depois, um amigo de infância foi nos visitar e falou que estudava numa importante Faculdade em São José... Conheci assim o “ITA” e o “CTA”.
Estudei e me formei em Belo Horizonte e já estava bem adaptada quando de repente o destino se intrometeu em minha vida e me apresenta um rapaz. Nos apaixonamos e os dois, em busca de melhores oportunidades nos casamos e viemos para cá.
A primeira vez que vi SJC estavas envolta por uma bruma... Era manha bem cedinho e o ônibus estacionou na   Rodoviária Nova. Andando por tuas ruas ela me pareceu uma cidade misteriosa meio assombrada com aquela neblina espessa e úmida... No trajeto conheci e me maravilhei com o Banhado. Não conseguia ver direito o que estava escondido sob a neblina... Parecia a orla de uma praia, mas não nesta altitude.
Mas tão rápido a bruma se dissipou e um sol luminoso brilhou a cidade. Vi então suas ruas planas, cheias de árvores e ipês floridos, pareciam enfeitados para uma festa. O chão estava como um tapete de flores a me receber. Esta é a imagem mais forte que tenho de ti... O asfalto forrado de folhas e flores... As andorinhas na copa das arvores faziam um barulho alegremente ensurdecedor e nas suas brincadeiras davam rasantes nas suas ruas ainda vazias aquela hora da manha.
Paramos na padaria e lá tomamos um gostoso café com pão na chapa, e foi assim que conheci seus primeiros habitantes. Olhando seus rostos percebi que vinham de vários lugares, todos correndo a tomar seu café e indo para o trabalho.
Era uma sexta feira e o ritmo agitado da cidade se contrastava com a expectativa no rosto de seus cidadãos pela proximidade do fim de semana. Com certeza faziam planos. Talvez fossem para um clube, O Luso, o Tênis ou a Associação Esportiva, ou quem sabe tinham um sitio no município ou mesmo nos arredores, Jacareí, Santa Branca, Jambeiro, Paraibuna? Podiam escolher ir para a Serra? Visitar Campos do Jordão? Mas com esse sol brilhante! Poderiam escolher também ir para alguma praia, tão pertinho daqui! Descobri depois que muitos de seus moradores eram meio que estrangeiros como eu e aproveitavam o fim de semana para ir visitar seus parentes, em São Paulo, Rio, ou no interior de Minas... E deixavam a cidade um pouco vazia...Naquela época ainda não existia os grandes Shoppings Center. Não havia o Center Vale, o Colinas, o Vale Sul. Existia somente o Shopping do Centro da Cidade, onde quase todos iam fazer suas compras e ver as novidades...
Assim falando parece que isto foi há muito tempo atrás... Veja bem, não sou tão velha assim, é que você São José dos Campos, parece que tomou fermento e cresceu muito e se desenvolveu mais que as outras cidades. Quando aqui cheguei era difícil encontrar alguém que havia nascido aqui. A maioria da população vinha de outras cidades
Agora você já tem muitos filhos! Filhos que te adoram e dizem não querer sair daqui, pois aqui é a cidade perfeita esta perto de tudo e tem tudo o que se pode querer em termos de diversão e qualidade de vida. Mas há alguns anos atrás ainda não era assim. As pessoas gostavam de fazer suas compras em São Paulo (ainda não perderam este costume), iam a teatros e bares sempre longe daqui. Hoje você São José já tem uma vida noturna agitada bares, cinemas e o teatro também esta se desenvolvendo por aqui... É só lhe dar mais um tempinho...
Lembro-me bem de que um dos primeiros lugares que conheci foi a Tecelagem Paraíba. Na época ela ainda funcionava dentro do que é hoje o Parque da Cidade, lindo! Encantei-me com seus prédios de tijolos, suas paineiras, e sua loja de cobertores... E me lembrei do comercial com o menininho que ia dormir todo quentinho segurando uma lamparina na mão e a cantiga que era assim:

_ “Tá na hora de dormir, não espere mamãe mandar... Um bom sono para você, e um alegre despertar...”

Eu me hospedei na Vila Ema. Na época um bairro de casas modestas e hoje é um bairro charmoso, sempre em transformação, cheio do agito dos bares e lojas que encantam os olhos. Passeando pela Vila Ema via a Rua Serimbura. A capelinha que lá existe me encantou pela sua localização e simplicidade. Andando por essas bandas conheci e me encantei com o Vicentina Aranha, quase abandonado era quase possível ver seus fantasmas...
Indo para o centro passei pelo Tênis Clube e lembrei que ouvira falar de grandes disputas esportivas que aconteciam ali. Soube então que ali antigamente era a Estação Ferroviária da cidade. As palmeiras imperiais que levavam até o centro da cidade, ainda estão lá na Avenida João Guilhermino a nos lembrar desta época antiga. E fui vendo mais... O Fórum, a Câmara.
Conhecendo o centro da cidade vi a igreja Matriz, timidamente majestosa nos seus traços simples, construída em 1934 onde outrora existiu a primeira capela do povoado construída em taipa de pilão pelos indios. Bem em frente à Matriz o marco zero da cidade. Bem próximo também estava a antiga, singela e abandonada Igreja de São Benedito que com suas historia nos encanta.
 Lembras São José?
 Ela começou a ser construída em 1869 e frequentada pelos escravos e homens pobres da região. Dizem que o “ Zé Taipeiro” foi o responsável pela construção de suas grossas paredes feitas de taipa de pilão. Segundo os “entendidos” ela só foi finalizada graças a um achado de um tal João Ribeiro que ao reformar um casarão na cidade acabou encontrou um panelão de barro cheio de barras de ouro e, em agradecimento ao “achado”,  finalizou a construção da Igreja.
 Contaram-me ainda que dentro da Igreja, entre duas paredes do templo está enterrado, em pé, o corpo mumificado do Capitão Miguel de Araújo Ferraz que foi tirado na época, da antiga Igreja do Rosário que estava sendo demolida e transferido para ela.

Na Praça Cônego Lima vi suas antigas e assombrosas figueiras suas paineiras, angicos e sucupiras...
Vi seu antigo Theatro São José que ainda funcionava se bem que precariamente...
Descendo para o lado dos campos de Santana conheci a nova Estação Ferroviária, a Tecelagem.
Fui andando para Santana, Freitas, Buquira...
Resolvi te conhecer mais. Fui em busca da tua historia e daqueles que sabiam mais sobre você. No livro do Bondesan conheci seu drama com a tuberculose, com o livro do Age Junior seu passado mais distante com suas historias da colonização.
Me encantei com o Livro do Omar Fonseca que te recriou em “branco e preto” com uma pena de Nanquim.
Conheci a Ângela Savastano guardando e pesquisando seu legado folclórico.
Sempre a margem, mas sempre atenta vi aparecerem novos admiradores e pesquisadores de você São José e assim novas antigas historias estão sendo reveladas.
Descobri que sua fundação se confunde com a historia de São Paulo de Piratininga... Contam-nos os historiadores que alguns índios Guaianazes fugitivos da aldeia de Piratininga vieram parar nessas bandas... Ficaram reunidos á margem do Rio Paraíba. Aos poucos o local ficou conhecido como “Aldeia do Rio Comprido”. Esse aldeamento aos poucos se mudou para o nosso querido banhado... Isso foi nos idos de 1643.
Soube da construção da “Residência dos Padres” na atual João Pessoa ou Largo da Matriz que mais tarde se transformou num convento e que era ligado a Matriz por uma galeria subterrânea para se protegerem do ataque dos índios inimigos.
Você consegue se lembrar das cabanas dos índios ali onde hoje é a Avenida São José e a Praça da Matriz ?
Nunca imaginei que nestas terras havia criação de ovelhas e que a lã dessas ovelhas criou uma pequena indústria de chapéus grossos de feltro e que houve extração de ouro na “fazenda dos padres”. Tambem não sabia que até a construção da represa de Paraibuna o banhado se enchia de água e na época das chuvas os moradores de Santana vinham de barco até a Igreja Matriz.
Sabias que onde hoje é centro da cidade existiu um cemitério e que às vezes ainda encontram pedaços de ossos quando cavam o solo? Que as “quatro paineiras da praça” marcavam a entrada de um cemitério? Tu te lembras São José?
Fui descobrindo que a descoberta do ouro nas Minas Gerais, fez a sua população já pouca diminuir ainda mais e esta correria do ouro fez nascer uma demanda por cavalos e mulas e trouxeram os tropeiros que negociavam estes animais que eram vendidos em São Paulo e no Rio de Janeiro.
E mais...
Que nas margens do Rio Paraíba lá perto de Santana, construíram um posto de remonta para descanso dos tropeiros e existiu outro posto de remonta as margens do Rio Paranga.
Suas tradições!
De certo o bolinho caipira feito fubá ( ou de mandioca?) e carne moída surgiu por ali numa noite fria, perto de um fogão de lenha, tendo como espectadores da novidade os olhos brilhantes dos filhos de tropeiros e caboclos.
Fiquei sabendo também que em 1759 os Padres Jesuítas que administravam a Aldeia foram expulsos do País e entregaram a administração da “Aldeia de São José” ao capitão mor de Jacareí o Sr. José de Araújo Coimbra, que se afeiçoou por ti São José e fez de tudo para elevar-te a Vila, antes mesmo de ter passado pelo estado de freguesia, como era a ordem normal das coisas...
Descobri que passaste um bom tempo dormindo, como que em repouso, uma forma de respeito aos que aqui sofreram tão terrível mal como foi a tuberculose.
Veja bem São José hoje conheço mais sua historia, sei que você foi uma cidade que no começo era pequena e sem muita expressão... Foi despertando devagarzinho... Vieram os mineiros, italianos, libaneses e outros mais. Chegavam para povoar suas terras, criando fazendas... Depois descobriram seu clima saudável para a cura da tuberculose, doença terrível que vitimava as pessoas de forma democrática. A única esperança de cura era um clima agradável alimentação e repouso. E assim trazidos por uma doença aportaram centenas de pessoas nas suas terras. Muitas se curaram e retornaram para suas cidades natal. Outras aqui lançaram seus últimos suspiros, outras ainda se curaram e escolheram continuar vivendo em suas terras.
Quando enfim se descobriu um remédio para tão terrível mal, podia se imaginar que tu São José não fosses mais crescer, iriam te esquecer... Mas eis que Getúlio Vargas manda construir uma rodovia ligando São Paulo ao Rio de Janeiro, e você São Jose dos Campos, que pacata estavas, fica colocada no meio desta importante rodovia. Isto impulsiona seu crescimento. A Rhodosa foi a primeira grande empresa a se estabelecer aqui, mesmo antes de inaugurada a Via Dutra. Logo em seguida veio o CTA e logo depois uma enxurrada de Empresas foi se estabelecendo em suas terras, trazendo gente de todo o país, e a pacatez de cidade pequena foi dando lugar a uma cidade agitada, cheia de operários, empresários, comerciantes, profissionais liberais... E uma coisa foi puxando a outra, vieram as Faculdades, a Etep, Ita, Inpe, Fundação Vale paraibana, Univap, Embraer, enfim suas terras se valorizaram. Construíram uma cidade dentro de outra cidade a: Urbanova. Continuas a crescer, pois como já me disseram com a construção do Porto de São Sebastião mais empresas passarão por aqui, mais progresso...
Tivestes e tens prefeitos que te amam, pois cada um que vem procura te embelezar mais...
Engrandeceram o seu nome. Creio que estas pessoas se apaixonaram por seus mistérios. Sua vida pacata da época. A sua origem indígena, o relato de que ai na beira do banhado os índios haviam escolhido para erguer suas cabanas, pois dali podiam ver os inimigos que poderiam surgir. Uns dizem que Jose de Anchieta foi quem te fundou! Mas o que mais intriga até hoje seus cidadãos é a curiosidade em saber: existe mesmo um túnel que liga a Igreja a Câmara?
E o seu jeito mineiro São José ele esta muito bem representado no Bairro de Santana. Já pensei até que ao escolherem o nome de Santana para este bairro foi uma escolha do destino, pois não era Santana a mãe de Maria, esposa de São José?
Santana é um capitulo a parte na tua historia. Guarda toda a sua tradição caipira, da terra. Moda de Viola, Sítios, Historias de Assombração, lendas... É realmente delicioso passear pelas bandas de Santana, conversar com seus moradores, ver ainda pelas suas ruas o vendedor que bate na janela de madeira e pergunta ao morador se quer comprar sua mercadoria... Ver as pessoas passeando na frente da igreja, conversando nas calçadas... Saboroso passeio faz bem para a alma, nos tranquiliza...
Pena que hoje em dia no caminho que nos leva até lá vemos o antigo Prédio quase abandonado da antiga Porcelana Weiss que a modernidade não permitiu que continuasse a funcionar! Em compensação a antiga Fábrica de Cobertores Paraíba foi transformada num local publico que abriga vários serviços públicos, como a Fundação Cassiano Ricardo, o Ceama, o Museu, e em breve o nosso Teatro Municipal.
Quando cheguei aqui e isto foi em 1984, já te achava grande São José, mas cresceste mais! Nestes anos que aqui estou vi cresceres para todo o lado. Acompanhei o crescimento de teus bairros, a realização de um antigo projeto como a construção do anel viário que nos permite cruzar a cidade em poucos minutos. Vi pessoas que chegavam como funcionários de empresas se transformarem em empresários bem sucedidos
Ao mesmo tempo São Jose não perdestes tua poesia. Um passeio na Avenida Anchieta nos deixa extasiados com seu Por do Sol. Subir no alto de um de seus enormes prédios pode nos proporcionar uma visão magnífica, sentimento de liberdade ao avistar toda a cidade espalhada pelo Vale, tendo ao fundo a Mantiqueira, ver o burburinho da cidade e um avião aterrissar no aeroporto.
És clara, linda, transparente...
O Crescimento deixou marcas em ti, São José! Ainda tens de te curar das feridas da violência. Ferida essa que assola todo o nosso País, mas creio que breve iras conseguir sanar também esta mácula que esta em ti... Protegendo sem distinção todos os teus filhos e agregados.
Enquanto escrevo esta carta para ti, sou obrigada a sair no meio da madrugada para ir até a farmácia, é noite fria tuas ruas estão tranquilas, quase vazias. Deparo-me com o voo de uma de suas famosas Corujas que graças a Deus teimam em dividir a cidade com os seres humanos.
Agora São José, depois de muita luta, decidistes revelar para nós a joia que estava escondida por detrás dos muros. O antigo hospital Sanatório Vicentina Aranha, construído na década de 30, rodeado de arvores lindas, com Capela pitoresca e de vitrais coloridos que ouviu no passado as preces dos doentes da tuberculose está se integrando a paisagem de maneira magnífica. Passear por estas bandas ficou muito mais bonito. Desde que estou aqui, vi bairros nascerem e crescerem. De antigos sítios bairros se formaram e continuas a crescer... Desejo a ti São José que continues a crescer, mas que saibas encontrar o limite ideal, que sejas feliz e faças feliz seus cidadãos, pois foi aqui que pude descobrir que se multiplicar dá sentido a vida, foi aqui que me tornei mãe de um casal de Joseenses maravilhosos.



Um comentário:

HERCULES E OS DOZE TRABALHOS DA ALMA

"O que poucos sabem é que esta narrativa esconde preceitos morais para a educação da personalidade humana, sendo tambem conhecida como ...